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Notícias da guerra

Luis Fernando Verissimo

Aconteceu outra vez. Como em todas as guerras, a primeira vítima da invasão do Iraque foi a Verdade. Ela foi ferida nos primeiros minutos de luta e quando deu entrada no hospital do Kuwait - ou num hospital de campanha montado dentro do território iraquiano, as versões divergem - já estava morta. Foi atingida por um soldado iraquiano disfarçado de civil, por "fogo amigo" dos aliados, por uma mina terrestre iraquiana, por uma bala perdida de origem desconhecida, por um míssil disparado pelos americanos contra Bagdá que se perdeu e a feriu junto com outros 10 inocentes, por um míssil disparado pelos iraquianos contra o Kuwait que também se perdeu e a feriu junto com outros 20 inocentes - depende de quem faz o relato. Era morena ou loira, alta ou baixa, magra ou gorda, casada ou solteira ou tudo isso ao mesmo tempo. Sacrificou-se pela libertação do povo oprimido do Iraque ou foi uma vítima da criminosa agressão ao povo do Iraque. Famílias diferentes foram notificadas da sua morte e brigaram pelos seus restos mortais, cada uma reivindicando o corpo para si, inclusive com documentos, certidões, fichas dentárias, etc., sem chegarem a um acordo. É sempre assim. Já se convencionou que só há uma maneira de saber ao certo de quem é, afinal, a Verdade: esperar o fim da guerra para que o vencedor possa, com calma, descrevê-la em detalhes, identificar sinais de nascença e velhas cicatrizes, e acabar com todas as dúvidas. A História mostra que nesses casos a Verdade era sempre do vencedor. E se não era, ficava sendo.


Contam que num determinado vale do Azarbeijão viviam duas etnias: os curtos e os surdos. Os curtos eram em menor número mas mais inteligentes do que os surdos, que de tanto se abaixarem para ouvir o que os curtos estavam dizendo acabaram criando os tortos, que culpam os surdos pela sua condição e vivem em guerra com eles apesar de serem da mesma etnia, apenas com desvio na coluna, o que os torna da mesma altura dos curtos, aos quais se aliaram para controlar todo o petróleo e as concessões Prada e Vuitton na região. Os surdos, na sua luta contra os tortos e os curtos, aliaram-se aos mofas, uma tribo de caçoadores das montanhas, apesar destes gostarem de mover os lábios e fingir que estão falando, para os surdos gritarem "Ahn?" e revelarem sua posição na trincheira ao inimigo, o que os diverte muito. Os americanos tentaram reunir todas essas etnias numa só frente contra o Iraque que teria o nome de "Desert Friends", com uma vaga promessa de visita da Jennifer Aniston à região, dirigida pelo general Mack Truck, também conhecido no Pentágono como "Mack sem Tato", e cujo primeiro ato no comando da operação foi distribuir latinhas do laquê usado pelo presidente americano durante suas apresentações na TV aos líderes das etnias com a bem-humorada mensagem de Bush "Boa sorte com o seu cabelo" escrita, por descuido, em hebraico. Não ajudou o fato de o general Truck, na chegada, desorientado por uma tempestade de areia, gritar para os curtos ouvirem e inclinar-se para falar com a barriga dos surdos, apontando a bunda para os tortos e os mofas, nem a sua preleção a seguir, que terminou com uma debandada geral e indignada dos pretendidos aliados, para grande surpresa de Truck. De volta a Washington, Truck foi avisado que a única coisa que unia as quatro etnias era o seu ódio aos turcos, que volta e meia invadiam o vale para estuprar as suas cabras e roubar suas mulheres, e que não pegara bem seu anúncio de que, para maior eficiência da operação, ela seria comandada por turcos. "Por isso que eu odeio a política" teria dito Truck, lamentando que o mundo não fosse dividido em apenas duas etnias, nós e eles, o que o tornaria bem mais manejável, antes de voltar para a região, desta vez levando dinheiro.


Eu sei, eu sei, é inviável. Mas por que não deixar que o Deus de Bush e o Deus de Saddam, tão invocados pelos dois, resolvam a questão num nível mais alto? O Deus cristão e o Deus do Islã, que devem ser vizinhos, poderiam se reunir para decidir tudo no braço ou no par ou ímpar, ou pelo menos estabelecer algumas regras básicas para a lisura do conflito.

- Tempestade de areia, não, Alá.

- Ah, é? B-52 pode, mas tempestade de areia não?

- Não é a mesma coisa, meu velho. Eu tenho que respeitar a cadeia de comando, e ninguém ouve os meus representantes na Terra. Nem o papa! Mas você tem o controle direto sobre os ventos do deserto.

- Tinha. Agora é com o deus de outra facção.

Eu sei, eu sei, é inviável.


Domingo, 30 de março de 2003.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.